Coluna | Periscópio
Wender Reis
Pedagogo e Orientador Social, curioso observador de tudo que causa espanto no mundo.
Chega de Blackface
30/04/2022

Em uma sociedade que supostamente valoriza a integração racial, não há algo de inquietante na ideia de que a coisa mais próxima de uma educadora negra de verdade em um uma de suas escolas seja uma branca com o rosto pintado usando uma peruca afro? Pois é. 

É o hipócrita discurso da diversidade em ambientes que incluem tudo, menos a pessoa real, sua comunidade e sua cultura. 

Já se passaram quase 200 anos desde que artistas brancos norte-americanos começaram a pintar seus rostos de preto para zombar de africanos escravizados em shows de menestréis nos Estados Unidos, uma espécie de stand up da época. Era racista e ofensivo naquele tempo e ainda é racista e ofensivo hoje.

Mas e o que isso tem a ver com o caso do colégio Santos Anjos em Varginha? Tudo. 

Ano após ano as escolas abrem suas portas para um novo grupo de estudantes que, desde os primeiros passos, recebem aulas projetadas para moldar suas vidas e visões de mundo de maneira duradoura e significativa. 

Pensando nessas crianças, que lições elas tirarão dos códigos implícitos na vestimenta e caracterização da professora naquela circunstância? O que a aparência, a linguagem, o comportamento exposto na interpretação da professora vai ensiná-los? 

Mas o que houve de errado, afinal? Muita gente questiona. Outros muitos, felizmente, não precisam desta pergunta respondida, pois para esse grupo é óbvio que uma prática que remete a uma história trágica é o oposto de uma boa ideia. 

Mas a professora não é racista (muitos estão pensando enquanto leem isso, inclusive), então tudo bem ela se pintar de preto. Parem de mimimi. Dizem. 

Para o grupo do "porquê" (e para qualquer um que se sinta motivado a dialogar com um de seus membros), aqui está uma explicação do que está errado em usar blackface:

Blackface é muito mais do que apenas maquiagem escura usada para aprimorar uma caracterização. Suas origens norte-americanas em meados do século XIX, com atores brancos usando graxa em seus rostos para retratar escravos não era o que podemos chamar de representações lisonjeiras. NÃO MESMO. Tendo como pano de fundo uma sociedade que sistematicamente maltratava e desumanizava os negros, eles eram retratos zombeteiros que reforçavam a ideia de que os afro-americanos eram inferiores em todos os sentidos.

Os menestréis já saíram de cena há muito tempo, contudo o assunto e a prática do blackface, infelizmente, não.  Blackface nunca foi e nunca será uma forma neutra de entretenimento e está bem longe de ser uma homenagem. É a produção e sustentação de estereótipos carregados de violências. Estereótipos que reforçam a ideia de que a negritude é, na melhor das hipóteses, uma piada.

Portanto, não importa se a “intenção foi boa”.  O prejuízo, seja em termos de provocar raiva ou tristeza, ou desencadear várias emoções ou mesmo fazer com que nós, negros, nos sintamos mais sensíveis e invisíveis ao mesmo tempo, está posto. 

“Mas eu não quis dizer isso”... Não se trata do que você quer dizer e sim do dano que pode causar. 

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