Coluna | BRASILzão
Fábio Brito
Presidente da Empresa das Artes, editora com mais de 160 obras publicadas nos segmentos de turismo, meio-ambiente e cultura; de guias de viagem a livros de arte. Os textos de Brasilzão são de sua autoria.
Vitória do Espírito Santo ao salvar Vitória
01/11/2019
Uma chuva forte e espessa despertou-me no leito do pequeno, singelo e limpíssimo hotel onde me hospedo no Centro Histórico de Vitória, Capital do Espírito Santo.

A zona central da cidade, outrora bela e pacata, está deteriorada e sujeita às ações criminosas de pequenos e jovens bandidos à espreita de sua presa: o turista desaviado e incauto.

Subo as antigas e elegantes escadarias - deterioradas - e segue-me uma magérrimo bastardo meliante com o intuito de assaltar-me. Simulo uma conversa telefônica na qual dou a entender que encontro-me no perigo e que venham em minha ajuda:

- ''Você está por aqui, Paulo?''

- ''Olhe para a direita e verá que um ser esquisito me segue!''

Naquele momento, o jovem desistiu de perseguir-me e continuou o seu caminho pela esquerda.

Caminho um pouco mais e encontro um jovem senhor com uma bela cadela negra, bem cuidada com amor.

Iniciamos um diálogo político-cultural e a cachorra aos poucos aceitou-me e tornou-se minha amiga. Fizemos então um breve tour pelo Centro Histórico, onde os casarões estavam ruindo, as paredes das edificações centenárias estavam pichadas, os fios elétricos entrelaçados de forma confusa e generosa desfiguravam o semblante desta bela porção de cidade com seus postes de cimento pendentes à direita ou à esquerda e o emaranhado desnorteado dos fios puxando à esquerda, levando à direita, dirigindo-se sem eira nem beira, sem rumo nem prumo, para múltiplas direções na confusa, maculada, sofrida e deteriorada Cidade Histórica.

Entrei em um bar onde poderia ler ''O Sertão da Farinha Podre'', pequeno livro que conta as origens do município de Uberaba.

Este pequeno romance histórico dos primórdios da região onde surgiria, em 1820, a cidade de Uberaba que em breve completará 200 anos de sua fundação, no bicentenário que ocorrerá no próximo ano.

Fui encontrado mais tarde, graças à tecnologia, pelo senhor acompanhado de sua cadela preta, que provou-me o quão vulnerável é a nossa individualidade e como estamos expostos e dependentes da tecnologia que nos trai e denuncia onde estamos.

Encontrou-me em um bar popular, onde degustava uma cerveja e lia o livro de Ernesto Rosa. Está provado que posso ser encontrado em qualquer local. Veio-me à mente a restrição de liberdade por estarmos rastreados constantemente, após os bem feitos e malfeitos do mundo virtual e digital.

Continuei, logo depois, caminhando pelas ruas estreitas e sinuosas do Centro Histórico e sempre maravilhado pelas belezas existentes e assustado com a possibilidade de estar assaltado em uma das mais belas cidades do Brasil, maltratada, maltrapilha, descuidada e com seu patrimônio cultural e arquitetônico ruindo.

Vitória completará,  em 2021, 470 anos de existência.  Nada está sendo feito com o intuito de melhorá-la, de forma visível.

Viva a vitória do Espírito Santo. Viva a vitória que deverá ocorrer para salvar o Centro Histórico de Vitória. E que contemos com o apoio e a luz do Espírito Santo. Viva Vitória do Espírito Santo!!!

 

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