Coluna | Fatos e Versões
Rodrigo Silva Fernandes
Advogado e articulista político do Jornal Gazeta de Varginha. Escreve todas as quartas e sextas.
A renúncia que abalou a cidade; Incertezas e dificuldades; Pilatos e Antônio Silva lavaram as mãos
08/04/2020

 A renúncia que abalou a cidade

Na manhã de segunda, a cidade de Varginha foi abalada por uma notícia que mexeu com todos os segmentos da cidade, além do político. Antônio Silva, que até então administrava a cidade com mãos criteriosas pelo quarto mandato, pediu sua renúncia! O falatório ficou por toda a manhã de segunda até que o então vice Vérdi Melo deu entrevista confirmando o caso. Apareceram depois a carta de renúncia, carta enviada ao vice, os secretários informando sobre o telefonema de despedida do prefeito, etc. Tudo isso num dos momentos mais tumultuados da vida administrativa da cidade com a pandemia do coronavírus já com três casos confirmados na cidade e mais de três centenas de suspeitos em Varginha. Também no mesmo momento quatro secretários se afastam da administração, tendo em vista o prazo eleitoral para possíveis candidatos a vereador. Aliás, a eleição municipal, por si só já é algo que tumultua a cidade, mas tendo em vista tantos outros problemas, isso foi até esquecido. E é bem possível que seja mesmo, a pandemia pode até mesmo mudar as eleições municipais, excepcionalmente neste ano, para o mês de dezembro. Vale ressaltar que as incertezas na área de saúde e política nada se compara com as incertezas do mundo econômico municipal, estadual e nacional. É certo que as arrecadações da União, Estados e municípios vão sofrer forte queda e o recurso previsto para que o Governo de Minas devolva aos cofres da Prefeitura de Varginha já não são tão certos. Pior é a questão do empréstimo autorizado pela Câmara, dando permissão para que a Prefeitura de Varginha, neste momento de incerteza afunde, ainda mais, em dívidas contraindo empréstimo de R$ 26 milhões para recapeamentos na cidade! Neste quadro geral de turbulência é que chega a surpreendente notícia da renúncia de Antônio Silva! Qual a razão desta decisão? O que poderia fazer um homem como Antônio Silva jogar tudo prá cima e abandonar o Poder, o compromisso público com a cidade, a importante missão de terminar seu mais importante mandato a frente da cidade neste momento? O que faria com que Antônio Silva colocasse em cheque o que teria de maior se cumprisse o mandato: sua biografia política e história?

Incertezas e dificuldades

Quando a notícia da renúncia se espalhou todos no Estado (sim, MG toda soube logo na manhã de segunda) queriam saber o que levou Antônio Silva a renunciar e quem assumiria o governo? O vice Vérdi Melo assume e como todos já se perguntavam, ele pode assumir o cargo de prefeito e disputar (agora) o cargo majoritário. Neste caso, se Vérdi ganhar as eleições neste ano, poderia ficar apenas mais quatro anos.  Isso, em tese, seria um facilitador para que o agora prefeito possa encontrar seu “vice dos sonhos”. Não se sabe como Vérdi Melo vai conduzir a cidade em três pontos urgentes que já “batem a porta”:

1 - O atendimento da população na saúde pública da cidade frente ao novo coronavírus.

2 – A abertura ou não do comércio frente a doença e seus reflexos financeiros na cidade

3 - A construção do seu secretariado e as negociações políticas na cidade diante das eleições que se aproximam.

No primeiro problema Verdi Melo sabe que a estrutura de saúde pública de Varginha é pequena para o enfrentamento da doença, mas, principalmente, a estrutura de saúde pública local não está “sintonizada”. Ou seja, não se vê entrosamento das estruturas públicas e privadas de saúde. Mesmo na saúde pública, o Hospital Bom Pastor não tem entrosamento com o Hospital Regional, cada um faz um planejamento diferente, às vezes concorrente, não há soma de forças. Na UPA, o clima de guerra é previsto pois a unidade é onde a população vai “bater primeiro”. E a equipe sabe que não há muitos recursos disponíveis. Com relação ao segundo problema, que depende fundamentalmente do primeiro, é certo que os números do contágio e das mortes na cidade vão nortear a abertura ou não do comércio e os graus de abertura e volta do comércio e da arrecadação. Aliás, não é imaginável que algumas áreas da sociedade sejam poupadas do esforço conjunto de todos. Ou seja, servidores públicos municipais vão ter que dar sua parte! Será que em ano eleitoral o novo governo vai ter o pulso de reduzir gastos com a folha de pagamentos dos servidores? A conferir!

Incertezas e dificuldades – 02

Já com relação ao terceiro problema é bem mais complexo. Verdi Melo não esperava “virar prefeito assim, neste momento e com tamanhos desafios no curto prazo”. O experiente político sabe que não tem uma equipe boa como precisa. Muitos dos que estão no governo estão em lealdade a Antônio Silva. Vérdi terá que encontrar, nomear e capacitar “os seus, sua própria equipe e time político”, e ele sabe que não tem um time completo. Alias, será “traumático” em meio a esta pandemia encontrar um “time” e mais que isso, cortar nomes no atual quadro será difícil, mas necessário. Os cortes não acontecerão de imediato, mas certamente virão! Nomes ligados a Vérdi como Carlos Honório ganham força. Já nomes ligados a Antônio Silva como Luis Fernando Alfredo devem perder peso e podem até deixar o governo. Vérdi deve se aproximar ainda mais da Câmara, o que não será difícil porque Zilda Silva, presidente do Legislativo, já possui boa interlocução com o agora prefeito. Não será surpresa se algum vereador mudar de partido ou atuação política num gesto de aproximação e apoio ao novo prefeito. No setor produtivo Vérdi terá um enorme desafio. Os empresários de Varginha e muitos dos seus líderes não estavam preparados para esta pandemia, nem para a apertada negociação política que existirá nas próximas semanas. Se quiserem abrir o comércio, os empresários precisam de líderes bem preparados, prontos para assumir compromissos e desgastes públicos. Para isso precisam de informações confiáveis e um discurso muito bem construído. Não se trata de escolher entre sobreviver ou perder o emprego, salvar vidas ou empresas! Não é uma disputa trabalhista ou capitalista! Temos um grave problema de saúde pública que afeta a economia também. A saúde e a economia precisam ser tratados juntos, afinal, a fome, desemprego, violência e os problemas relacionados a recessão econômica também matam e matam bem mais que o coronavírus. Será que os líderes empresariais vão conseguir se capacitar para o enorme desafio e não cometer os mesmos com o atual prefeito! Sim, é muito provável que os erros e acertos entre empresários, Ministério Público e a saúde pública local tenham sido o estopim que levou a renúncia de Antônio Silva. Não a razão principal, mas certamente uma das que circulam nos bastidores.

Pilatos e Antônio Silva lavaram as mãos

Diante da pressão crescente do comércio que quer trabalhar, da cobrança também crescente da população por meio das redes sociais e entidades locais que se manifestaram contra a abertura do comércio neste momento. Com os números crescentes da pandemia em Minas e em Varginha, a expectativa não é boa. Antônio Silva é criterioso e devia estar acompanhando de perto os números. Varginha tem o maior número de suspeitos de contagio do Sul de Minas. A rede particular de saúde de Varginha, composta pelo Hospital Humanitas e Hospital Varginha não estão em sintonia com o poder público, estão focados nos seus clientes que vão pagar caro pelo tratamento quando precisarem. Os planos de saúde foram obrigados a arcar com as despesas de tratamento pelo Covid-19, mas ainda assim, haverá custos assessórios e certamente o preço vai chegar aos usuários dos planos de saúde. Desta forma, os hospitais particulares em Varginha não focam na possibilidade de “atender geral” como se prevê para UPA, Hospital Bom Pastor e Regional. Antônio Silva criou o “conselho de crise” composto por autoridades do setor público de saúde e outras áreas. A construção deste conselho e tratamento com o mesmo era coordenada pelo então vice Vérdi Melo, contudo, a falta de “controle ou critério” das manifestações não impediram que o próprio Antônio Silva fosse atacado pelo Conselho e seus representantes do setor público quando do decreto de Antônio Silva para a abertura do comércio. Depois disso, apenas dois dias após o decreto, uma chuva de críticas, algumas técnicas outras não, deram início a uma campanha de pressão contra a medida assinada pelo então prefeito. Antônio Silva foi atacado pessoalmente nas redes sociais e por entidades como Ministério Público e até empresários. Antônio Silva já sofreu pressão política antes, será que desaprendeu a ignorar, será que foi “mimimi” ou a pressão que suportou sozinho foi muito forte? Naquele mesmo final de semana Antônio Silva decidiu renunciar! A medida foi oficialmente informada na segunda. Naquele momento Antônio Silva “lavou as mãos” e deixou o povo e seus líderes a própria sorte com suas escolhas! Pilatos fez a mesma coisa no passado!

O tempo provará e a história vai apenas registrar

Nesta semana, após a renúncia seguiu-se testemunhos de diversos líderes públicos, imprensa, cidadãos comuns que conhecem e conviveram com Antônio Silva nestas décadas de vida pública e privada. Alguns depoimentos severos, outros otimistas. Cada um tem uma opinião, cada um tem um julgamento. Poucos sabem realmente tudo que ocorreu e levou o político experiente a deixar a vida pública. Menos pessoas ainda sabem as inúmeras intempéries por que passa um governante. Mas três instituições e alguns líderes locais precisam ser destacados neste episódio que vai entrar para a história da cidade como a primeira renúncia de um prefeito de Varginha. Refiro-me ao honrado Ministério Público do Estado de Minas Gerais e as operantes Associação Comercial e Industrial de Varginha – ACIV e Associação Médica de Varginha. Em relação ao Ministério Público é sabido que a instituição muito contribuiu para democracia, lisura e eficiência das administrações, contudo, a responsabilidade de representar tal entidade em Varginha ou qualquer outra cidade não é fácil! Basta um paço errado, uma medida não tomada ou precipitada sem planejamento que o erro de uma promotora pode jogar na vala comum uma instituição honrada como o Ministério Público. Aliás, qual a diferença entre o Ministério Público e a Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa ou Congresso Nacional? Genericamente quase nenhuma, afora o caso que o MP é bem mais caro proporcionalmente para o cidadão! Com salário elevado e uma carga horária baixa, o promotor de justiça costuma agir remediando e pouco previne! Sabemos que a ilustre representante do MP em Varginha deveria ouvir a população, seus líderes e participar das soluções, contudo não se tem notícia da participação da representante do Parquet nas discussões prévias dos principais problemas da cidade, inclusive no caso do Covid-19. Em Varginha, o MP não participa do debate prévio sobre problemas ambientais, administrativos etc. Mesmo convidado, o MP se ausenta no momento de “busca de saídas”. Todavia, aparece durante a realização das ações, mas não aparece para contribuir, mas sim para apontar falhas, ameaçar com sanções, determinar interrupções, corrigir problemas que talvez não teriam acontecido se a instituição estivesse participando das ações desde o seu planejamento! O caso problemático da abertura do comércio, enfrentamento do Covid-19 é um dos muitos casos assim!   

O tempo provará e a história vai apenas registrar – 02

Já as Associações Médica de Varginha e Associação Comercial de Varginha, representadas por seus presidentes, também têm sua cota na fraqueza dos atuais problemas vividos pela cidade. O comércio é fundamental para o funcionamento da cidade e mesmo para o enfrentamento da Covid-19, é com os impostos do comércio que os governos combatem a doença, pagam salários aos médicos, compram insumos de saúde e trazem vida ao paciente doente. Também é o comércio essencial como as farmácias, supermercados entre outros que garantem a continuidade da quarentena necessária para se combater a pandemia neste momento. Tamanho sua importância o comércio, por meio da ACIV, foi chamada para o debate da reabertura ou não do comércio, quando se daria e os termos em que se daria esta possível abertura gradual. É preciso que os líderes setoriais neste momento saibam e tenham força para superar os desgastes inerentes do cargo e, com clareza e de forma técnica debatam o problema a ser enfrentado: a necessária discussão sobre defesa da economia e da saúde de forma conjunta. O decreto de reabertura do comércio não foi algo que “brotou na cabeça de Antônio Silva”! O afamado decreto foi debatido com técnicos da área médica, comerciantes, líderes da comunidade entre outros (menos o Ministério Público, que costumeiramente se ausenta da busca de soluções). Por certo que no conforto da sala fechada sem o questionamento da opinião pública, a defesa da reabertura do comércio deve ter sido vigorosa! E por certo que os motivos elencados pelo comércio para voltar ao trabalho devem ter sido, e continuam sendo válidos. Todavia, as autoridades de saúde, também presentes nas discussões que deram origem ao afamado decreto de Antônio Silva também elencaram com justa fundamentação a importância do isolamento, que repito, é fundamental para evitarmos aglomerações. Justamente por não haver consenso os debates foram promovidos e justamente por ambas as partes terem fundamentos reais, sólidos e justos, buscou-se uma solução municipal formal com a publicação de um decreto que obrigou o comércio a criar salvaguardas e impôs compromissos. Neste sentido, a decreto assinado por Antônio Silva foi o resultado do conhecimento e anuência de todos os segmentos que participaram de sua construção. Certo ou errado, os grupos que participaram da construção deveriam ter a clareza e serenidade de defender seus argumentos perante a opinião pública, que sabemos ser diversa e controversa. Não participar da discussão dos problemas na busca de soluções ou se acovardar na defesa pública de seus argumentos é algo pequeno demais, não condiz com o tamanho da história, credibilidade e honra de instituições como o Ministério Público, Associação Comercial de Varginha e Associação Médica de Varginha.

 

 

 

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