Coluna | BRASILzão
Fábio Brito
Presidente da Empresa das Artes, editora com mais de 160 obras publicadas nos segmentos de turismo, meio-ambiente e cultura; de guias de viagem a livros de arte. Os textos de Brasilzão são de sua autoria.
A Outra Brasília
12/03/2019
A calçada larga e disforme, totalmente "forrada" de cimento, está sob pequenas mesas de plástico com suas horrendas e desconfortáveis cadeiras ora vermelhas, ora alaranjadas, ostentando em seu encosto marcas de cervejas populares como "Devassa, bem loura" ou "Skin".

As lojas e demais estabelecimentos comerciais de "baixa estatura" ficam perdidos, submersos, afogados, entre placas de publicidade que conduzem uma promíscua poluição visual que nos faz lembrar, há décadas, as ruas movimentadas da antiga Madras, populosa cidade indiana.

O hotel onde hospedei-me não tinha nenhum charme em sua fachada ou na decoração interna. Encontra-se em uma movimentada avenida onde uma passarela nos permite atravessar a ruidosa via e caminhar até a estação de metrô Tabatinga Sul.

Alguns carros velozes, com suas janelas abertas, inundam o ar com estilos musicais nordestinos, música sertaneja e o batuque do terrível - e temível - atentado aos tímpanos, o indigesto funk.

O céu, de um azul translúcido, tem sons esmaecidos pela ausência de luminosidade no findar do dia. Poucas nuvens, esparsas, parecem salientar que o firmamento está prestes a acolher a hecatombe.

Vem-me à mente que, há décadas, esta região fora coberta de espécies vegetais endêmicas do Cerrado em suas formas retorcidas enaltecidas por pequenas bromélias arraigadas em seus troncos. Pequenos animais, pássaros diversos e aves de rapina compartilhavam esta abençoada porção de Brasil antes que o animal racional destruísse esse paraíso terrestre.

Tabatinga Sul, a Outra Brasília. A Brasília nordestina, o Distrito Federal desfigurado! Onde impera a desordem, a poluição visual e sonora. Onde reside o mau gosto.

Este é o Brasil profundo, a nação esquecida, terra longe dos holofotes e da maldição que paira no Senado, na Câmara dos Deputados, nos Ministérios e no âmago dos malditos que se intitulam "donos do Brasil".

Sigo caminhando a favor da brisa e com documento.

Percebo, ligeiramente, a estética na inocência ainda existente ao presenciar a entrada, na igreja próxima, de uma noiva acompanhada de seu pai cadeirante cuja imobilidade física retrata fatos ao longo de sua história de vida com seus segredos.

Cena belíssima e comovente. Será o início ou a continuidade de uma complexa trajetória pelo destino?

Viva o Cerrado minguante!

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