Coluna | Periscópio
Wender Reis
Pedagogo e Orientador Social, curioso observador de tudo que causa espanto no mundo.
Fé na fé
28/02/2017
A casa verte ansiedade. O dia entra pela janela sem cortinas e lá estão minhas frases desvendadas na parede vermelha do quarto. Uma ou outra destas que mais gosto, ou gostei de ter escrito. Uma me arranha um sorriso cínico e delinquente no rosto: "É hora da oração". Cínico e delinque porque ignorei com indulgência a mesma frase na noite da véspera. Não fiz a oração. Mas me aprumo e vou logo verbalizando uma cantada para o horizonte. Diz-se que Deus adora um fifiu bem dado. DR's com o cara lá do céu são sempre bem instrutivas. Ele não é bom com essa coisa de cobrança. Após a paquera com o divino, passo a pauta aos votos do altar. Contam que Deus sabe do que a gente precisa, a gente é que não. Minhas convicções não são lá tão fortes, enfim. Me preocupo, é claro, parece que Deus não curte muito os frouxos. 

(Lá em casa na meninice, esse negócio de falar com deus era mais complicado, tinha uns versos esquisitos que a gente decorava mesmo sem querer, embora sempre quiséssemos. Caçoar dos mímicos labiais dos padres só é um direito instituído aos que sabem a missa. O pai nunca foi de decorar reza, acho que é por isso que se tornou evangélico.) 

Dia desses, na fila do supermercado, perto daquele amontados de livros, que invariavelmente está junto aos caixas, o senhor a minha frente se indignou com o título de um deles. Nem deu tempo de criar uma expectativa de levar um papo de livreiro eventual com o velhinho simpático. Afinal, livros de supermercado são realmente horríveis, mas, em um existencialismo "dona-de-casa" como o nosso, criamos a necessidade das receitas gastronômicas, empreendedoras, Augustocuristícas e etc. A indignação do bom velhinho era com a "Bíblia do Churrasqueiro". Comentou, "desrespeito, colocassem guia, manual, mas bíblia não". Eu, distraído e surpreendido pela interação, querendo ser agradável, emendei, "o evangelho segundo os gaúchos". O tiozinho não correspondeu o gracejo. Falou mais alguma coisa, se virou para frente sem comprimento.

(Na escolinha da igreja, era comum sermos repreendidos com um "não caçoem das coisas de Deus". O pito vinha sempre em tom de ameaça, o que nos confundia um pouco, já que na nossa cabeça o Divino deveria estar no culto com os adultos. Não abstraíamos muito bem ainda, a vida era mais concreta. Eram bem chatas as coisas na escolinha. Brincadeiras solenes e puras demais, afinal não podíamos brincar como diabinhos.)

Volta e meia é assunto, com os amigos, as igrejas e religiões. São debates sempre acalorados que, com raridade, nos levam a algum lugar, ou faz alguém mudar sua opinião pré-formada. Mas seguimos fiéis a agenda dos templos, do estado-igreja, dos rojões pró Alá, etc, etc, vírgulas e seus desdobramentos. Falamos muito dos representantes de Deus, mas do presidente do céu pouco nos ocupamos. 

(Jogando bolinha de gude, ao acertar a bolinha do adversário na fase final do jogo, naquelas jogadas de perícia e sorte, soltávamos um "crendeuspai". Tava ali, a prova cabal de que Deus existe). 

 

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