Coluna | Periscópio
Wender Reis
Pedagogo e Orientador Social, curioso observador de tudo que causa espanto no mundo.
Me alugo para lembrar
27/12/2016

Final de ano e as pulgas que vivem atrás de minhas orelhas me sopraram a lembrança de um conto do sul-americano Nobel de literatura Gabriel García Márquez, “Me Alugo para Sonhar”, publicado originalmente no livro “Doze Contos Peregrinos” me ocorre justamente no momento em que lançamos vistas para a retrospectiva de 2016. O conto trata sobre a vida de Frau Frida, personagem que se aluga para sonhar. Era o que dizia para qualquer um que perguntasse sobre sua profissão. Além de sonhar, a personagem do conto de García Márquez interpretava os sonhos.

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Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

_O que esse sonho significa – disse – não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

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O autor de “Cem Anos de Solidão” é o maior expoente do Realismo Fantástico na América Latina. Para quem não conhece, a principal particularidade desta corrente literária é unir o universo mágico à realidade, apresentando elementos irreais ou estranhos como algo comum e cotidiano. Além desta característica, o realismo fantástico mostra os elementos mágicos de forma intuitiva, ou, melhor dizendo, como algo sem explicação. 

Mas então será que estamos em um livro de realismo fantástico e não estamos sabendo? Repare aí na retrospectiva, especialmente a política de 2016. Repare por sua própria conta como as nossas principais instituições estão sendo mais surreais que as histórias do García Márquez. Perdoem estar sendo genérico, é o cansaço de fim de ano. 

Mas de volta ao “Me Alugo para Sonhar”, onde Frau Frida ganha vida sonhando, aproveito o espaço para dizer que me ‘alugo para lembrar’ e assim o farei em 2017 com mais afinco e de maneira menos genérica. Pois o buraco negro que é a consciência do eleitorado brasileiro tem que fechar. 

Que a sua retrospectiva de 2017 seja a melhor possível. Feliz ano novo. 


Obs.: O recorte do texto acima foi extraído do livro "Doze Contos Peregrinos", Editora Record —  Rio de Janeiro, 1999, pág. 89.

 

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